Política
Os perigos do Portfólio de Palanque
2. O ENREDO BRASILEIRO DE 2026
INTRODUÇÃO
Bom dia, família.
Espero que todos tenham aproveitado os festejos de fim de ano e desejo um 2026 excelente, cheio de saúde e realizações.
Começo 2026 escrevendo sobre esse tema fascinante chamado política. Fascinante pela sua infinita capacidade de transformar irmãos em inimigos, desafetos em aliados e ponderados em fanáticos de seita.
O timing é perfeito. Acabamos de atravessar o Natal, esse momento mágico em que famílias se reúnem pra brigar por políticos que, naquele exato instante, estão confraternizando juntos em algum lugar chique financiado por verba pública. Adversários no palco, sócios no camarim. Só quem briga somos nós!
Veio também o Ano Novo. E, dessa vez, ouvi muitos votos do tipo “Feliz 2026, que você vote com consciência.”
Espera um pouquinho!
“Vote com consciência” ???
O que aconteceu com os tradicionais votos de saúde? De paz? De prosperidade?
Que se danem todos eles! O foco no momento é votar com consciência. Se para isso você tiver que definhar na doença e na pobreza, que seja.
Entendi.
E, claro, ‘consciência’ quer dizer ‘concordância’. Votar com consciência é votar exatamente como aquele que acabou de te desejar “Feliz 2026”.
É a política trazendo o que há de melhor na gente.
O ENREDO BRASILEIRO DE 2026
2026 é ano de eleição presidencial, o que torna a obsessão em torno de política ainda maior. O mercado brasileiro, claro, não ficou imune. Ao que tudo indica, já escolheu seu candidato favorito. Mais do que isso, já escolheu também o seu enredo. Um roteiro simples e reconfortante, que pode ser resumido mais ou menos assim:
“As ações brasileiras estão baratas e existem poucas delas listadas. O candidato certo vai vencer, o capital estrangeiro vai desembarcar em massa na B3 e, com tão poucos papéis disponíveis, os preços vão explodir.”
Não é um cenário absurdo. Talvez nem seja um cenário improvável. Trata-se, inclusive, de uma narrativa que já encontra eco fora do Brasil. Um dos podcasts que gosto de ouvir - ValueHive - recebeu recentemente Kuppy, da Praetorian Capital. Nele, Kuppy comentou que o Brasil hoje figura entre suas maiores exposições, justamente por essa expectativa eleitoral.
Mas há uma diferença fundamental. Kuppy é um investidor temático global. O Brasil é apenas uma de suas apostas. Hoje, relevante. Porém, intercambiável. A exposição aumentou recentemente e pode diminuir amanhã, sem drama.
Já para muitos investidores locais, o roteiro é outro. Integralmente sempre posicionados em ações brasileiras, aguardam agora que o desfecho da eleição funcione como o gatilho para a tão sonhada reprecificação explosiva.
Esse é o pano de fundo que me traz ao texto de hoje.
A ILUSÃO DA PREVISÃO
Em 1948, a capa do Chicago Daily Tribune estampou em letras garrafais, para que ninguém tivesse dúvidas:
DEWEY DERROTA TRUMAN
Só havia um pequeno problema com essa manchete: a apuração ainda não tinha terminado!
Quando terminou, descobriu-se que o vencedor era justamente Harry Truman. Enquanto Truman se deleitava lendo sobre sua derrota que nunca aconteceu, o Chicago Tribune garantiu um lugar na história com um dos maiores erros jornalísticos já cometidos.
Ansioso para fechar sua edição, o jornal foi para a gráfica antes do fim da contagem. Apoiado nas pesquisas eleitorais e na convicção de analistas políticos de excelente track record, o folhetim decidiu não esperar pelos fatos e noticiou Dewey como o novo presidente eleito. Ou seja, tentou antecipar o futuro quando tudo o que precisava fazer era esperar e relatar o passado.
O constrangimento do Chicago Tribune serve para nos manter humildes diante de um fato simples: é muito difícil prever o que vai acontecer em política. É tentador dizer que 1948 foi há muito tempo, uma era de métodos rudimentares. Mas a verdade inconveniente é que mesmo a história recente insiste em nos lembrar que cenários-base falham com frequência. O Brexit que não passaria, a Hillary Clinton que se tornaria a primeira presidente mulher dos Estados Unidos, o Milei que nada mais era do que uma figura folclórica…
É difícil prever o resultado de uma eleição. Mais difícil ainda quando estamos longe do dia do pleito e as peças do tabuleiro político ainda se movem de um lado para o outro.
E mesmo que conseguíssemos antecipar o vencedor, isso faria diferença? No fim das contas, acertar a eleição não é o mesmo que acertar onde colocar o dinheiro. E, não raro, é justamente aí que o erro começa.
MR. MARKET E A POLÍTICA
Ainda me lembro bem como o mercado encarava, com indisfarçável desgosto, a possibilidade de uma presidência de Donald Trump. Um desgosto temperado com desdém. O mercado só não estava mais alarmado porque, no fundo, não acreditava. Trump não ganharia de Hillary Clinton. O laranjão era tratado mais como folclore do que como destino.
E o que aconteceu? Ora, Trump não apenas ganhou como o mercado, que deveria cair, subiu. E subiu muito.
O mais engraçado foi observar a imediata manifestação de bipolaridade do Mr. Market diante de tudo isso. O mesmo mercado que ensaiou pânico, no dia seguinte foi às compras. O medo virou rali, como bem descrito pela revista TIME no dia seguinte ao resultado:
Uma outra lição dos eventos políticos é que não basta acertar o vencedor. É preciso também antecipar como o mercado reagirá diante do vencedor, o que está longe de ser óbvio.
Até aqui, as mesmas lições aprendidas por ninguém menos do que Howard Marks:
A ILUSÃO DA REAÇÃO
Lula hoje é a face institucional do Brasil. E isso não é por acaso. Há algo como um quarto de século o país é governado, direta ou indiretamente, em função dele. Foram três mandatos próprios, dois de uma candidata que ele inventou, e até mesmo sua derrota veio por um candidato que só ganhou relevância ao se reinventar como seu antagonista. Gerações inteiras cresceram vendo Lula como o grande nome político do Brasil.
Mas em 2002, quando tudo isso começou, o cenário era bem diferente.
Lula era um perdedor serial. Havia perdido três eleições seguidas. Seus discursos eram radicais, confrontacionais e, aos olhos do mercado, aterrorizantes. Sua vitória foi interpretada como o sinal de que o Brasil seria a próxima peça de um dominó que havia acabado de desmoronar na Argentina em 2001. Falava-se em calote, ruptura institucional e populismo descontrolado.
E, no entanto, isso foi o que o IBOV entregou nesse seu primeiro mandato:
Essa imagem vem de uma postagem do After Market FL, escrita pelo ótimo Gui Zanin. O texto em si merece uma leitura. Lá você vai ler um pouco mais sobre como muitas vezes o mercado não reage de acordo com as nossas expectativas políticas.
O INVESTIDOR MILITANTE
Um dos grandes perigos da política é sua vocação para transformar o investidor comum em um investidor militante. Isso não acontece do dia pra noite. A política é uma droga paciente, que age sem alardes. Uma droga barata e abundante, disponível em cada esquina. Pode ser oferecida pela elegante coluna de jornal escrita por um PhD ou pelo tuíte raivoso de um perfil anônimo. E vem embrulhada em um verniz intelectual, como se apenas os tolos ousassem ignorar aquele saber.
O primeiro trago dessa droga faz o sujeito se sentir informado. No segundo, já se sente lúcido. No terceiro, acredita ter compreendido o mundo. Sem se dar conta, a militância toma conta do seu tempo e sequestra seu processo de investimento.
Em The Righteous Mind, Jonathan Haidt explica o fenômeno. A política oferece pertencimento, identidade e uma suposta superioridade moral. O investidor militante acredita integrar uma tribo esclarecida e iluminada. E é exatamente aí que os vieses abrem a porta.
Desses vieses nascem leituras tortas de mercado. Aqui está uma diferença importante. A política faz o investidor comum errar porque o mundo é difícil e complexo. E a mesma política faz o investidor militante errar porque ele só enxerga o mundo através de uma lente dogmática. Uma lente que ele toma por lucidez.
O investidor militante tem perfil convicto e agressivo, o que acaba refletindo sua performance. Quando o mundo anda em linha com sua ideologia, colhe grandes retornos. Quando o mundo ousa discordar, coleciona grandes prejuízos com a serenidade de um mártir.
Uma vida arriscada diante do mercado, esse personagem que não dá a mínima para o dogma de ninguém.
Um personagem que pode ser tudo, menos militante.
EMPRESAS & ESTADO
Nenhuma pessoa em pleno juízo acredita que política seja irrelevante para os negócios de um país. A política, para o bem ou para o mal, mete a mão na vida das empresas sem pedir muita licença. Qualquer empresário de esquina aprende isso cedo. O que muda, contudo, é o grau de intromissão que recai sobre cada tipo de negócio.
Alguns negócios, como os concessionários, já nascem condenados a conviver intimamente com o Estado. E é bom que saibam levar a relação, já que sua existência depende muito disso.
Há também os negócios que vendem produtos e serviços de grande impacto social. Quando é assim, o Estado fica de olho. Imagine a explosão da revolta de eleitores consumidores com uma brutal escalada nos preços de itens como combustível, medicamento e plano de saúde. Pois é, o Estado também não gosta de imaginar isso...
Outros negócios sofrem vigilância por conta do comportamento que instigam na população do país. Quando o governo decide que um consumo é moralmente duvidoso ou socialmente nocivo, a vigilância pode escalar pra restrições, taxações ou a pura e simples proibição. Negócios do pecado vivem nessa linha de tiro. Cigarros, bebidas, cannabis, apostas… As vezes o Estado entra como tutor moral, as vezes entra pra faturar com o vício do seu próprio povo.
E existem os negócios que são empurrados pelo Estado. A ajudinha pode vir na forma de subsídios, incentivos fiscais ou até proteção contra a concorrência. O discurso, sempre nobre, passa por setor estratégico, desenvolvimento nacional e futuro do país. Uma das teses mais interessantes que vi nos últimos anos foi a dos bancos beneficiados pelo Emergency Capital Investment Program (‘ECIP’). De forma resumida, dezenas de pequenos bancos americanos receberam uma generosa infusão de capital permanente a um custo irrisório. Um verdadeiro presente do Tesouro Americano, que serviu de catalisador para a enorme valorização de muitas dessas instituições financeiras que, inclusive, já eram bem geridas e capitalizadas.
Repare que eu sequer fiz distinção entre estatal ou privada. Me limitei ao tipo de negócio, sem mencionar o dono. Quando o controle é propriamente político, claro, a exposição é maior ainda. Uma exposição que vem até da realidade mais banal: a incompetencia que acompanha as nomeações de gestores feitas por amizade ou troca de favores.
O ESPELHO DA VERGONHA
Política não surge no vácuo. Ela é, em grande parte, um produto da mentalidade de um país. Líderes e programas de governo refletem valores disseminados na sociedade. Refletem a visão que o povo tem sobre justiça, risco, lucro, mérito, empreendedorismo, Estado, etc. Muitas vezes, esse é um espelho que nos envergonha. Envergonha, porque nos obriga a reconhecer que o dedo que apontamos para Brasília (no nosso caso) é também o dedo que temos que apontar para nós mesmos.
Algumas sociedades possuem forte senso empreendedor. Faz parte da natureza deles. São sociedades que normalizam o risco, valorizam a iniciativa individual, abraçam a falha e não demonizam o enriquecimento. Nelas, forma-se um ecossistema que atrai capital, talento e ambição. Um campo fértil para negócios florescerem e gerarem riqueza.
Outras sociedades, de mentalidade assistencialista e estatizante, constrõem o oposto. Labirintos regulatórios, insegurança jurídica, complexidade tributária e empecilhos para quem empreende. O Estado é visto como grande provedor e o empreendedor como ente perverso. Aqui, o que se forma é um ecossistema hostil ao empreendedor.
Isso não quer dizer que uma sociedade produz apenas vencedores e a outra produz apenas perdedores. Claro que não. Mas não é preciso grande esforço para perceber que algumas sociedades oferecem um terreno muito mais promissor para quem busca garimpar grandes negócios.
Como dizia Munger, “Fish where fish are”.
Em que tipo de sociedade você acha que há mais peixes?
UMA QUESTÃO DE ALOCAÇÃO
Muita gente vive de política. Não só os políticos, claro. Vivem dela comentaristas, analistas, jornalistas, acadêmicos, influenciadores e muitos outros intérpretes do poder. É uma grande indústria, cuja contribuição é a permanente geração de ruído. Essa indústria tem o interesse de nos convencer de que a política é o eixo central de tudo, inclusive do nosso portfólio. Sem essa crença, o negócio esvazia.
Como já disse, não é que política não importe. Claro que importa. Mas ajoelhar-se diante dela é outra coisa. No portfólio, política deve ser fator de risco, não bússola. Política não é filosofia de investimento. Nenhum investidor prospera por décadas fazendo da política a tese central do portfólio ou apostando, eleição após eleição, no resultado das urnas.
O investidor que prospera é menos emocionado. Ele começa por aceitar simples verdades:
política é difícil de prever;
a reação do mercado é difícil de prever;
política é um campo fértil para vieses;
alguns negócios são mais expostos à política do que outros;
certas sociedades oferecem um solo muito mais fértil para o florescimento de grandes empresas.
Com isso em mente, ele constrói seu portfólio. Diversifica geografias, modelos de negócio e fontes de receita. Sabe que empresas globais já carregam riscos políticos diluídos. Entende que democracias e regimes autoritários produzem riscos distintos. Entende que governos, eleitos ou não, podem ser tanto aliados quanto inimigos do mercado. Compreende que investir com base em eleição é apenas uma forma de market timing. Por tudo isso, evita a imprudência de apostar toda sua performance no desfecho de um calendário eleitoral.
No fim das contas, a premissa é simples: o investidor não está no jogo de vencer debates políticos. Está no jogo de gerar performances consistentes e repetíveis ao longo do tempo.
E quando se trata do tema de hoje, a melhor forma de alcançar isso é através de uma alocação que não se curva à um gatilho político.
Grande abraço,
Leo Caroli










