Bom dia, família!
Começa a temporada de resultados. Não esperem de mim uma cobertura completa de todos os nomes que já passaram por aqui. Não dou conta e, sendo honesto, nem me interesso. Prefiro selecionar a dedo e atualizar sobre uma ou outra empresa que, por alguma razão, chame minha atenção.
Nada de Google, Microsoft ou Meta. Essas já têm holofotes demais até mesmo no nosso Brasil. Em Negócios pelo Mundo, como vocês sabem, evitamos os holofotes. O que nos atrai são os desconhecidos e os ignorados.
É nesse ritmo que hoje trazemos uma atualização e uma nova empresa. As escolhidas foram:
1. Valeura Energy $VLE.TO
Produtora de petróleo focada em exploração e desenvolvimento na Tailândia. Excelente execução e geração de caixa. Acabou de anunciar um novo acordo de farm-in na Tailândia. ~$700 milhões de valor de mercado.
Última atualização [Radar 1]
2. Pitney Bowes $PBI
A Pitney Bowes é uma empresa americana com atuação centenária no setor de envio e logística, que vem passando por um processo de reestruturação sob nova liderança. Seu modelo atual combina leasing de equipamentos e serviços postais (SendTech), pré-triagem automatizada de correspondências (Presort) e uma unidade financeira (Pitney Bowes Bank). Sob o comando de Kurt Wolf (o mesmo da GameStop), a companhia vem focando em eficiência operacional, geração de caixa e recompra agressiva de ações. ~US$ 2 bilhões de valor de mercado, ~US$350m fcf. É um case que merece um pouco de atenção dos gestores que nos acompanham.
1) Valeura Energy $VLE.TO
No último dia 25, a Valeura anunciou um acordo farm-in com a PTTEP no Golfo da Tailândia. A PTTEP é a empresa nacional de exploração e produção de petróleo e gás natural da Tailândia. Uma espécie de Petrobrás tailandesa. Resumindo, o acordo é o seguinte:
Participação de 40% nos blocos G1/65 e G3/65, no Golfo da Tailândia.
Expansão da exposição de área bruta da Valeura na Tailândia de 2.623 km² para 22.757 km².
Descobertas existentes: 15 descobertas de petróleo e gás, com suporte de 27 poços perfurados.
Investimento retroativo: Valeura pagará US$ 14.7 milhões referentes a:
Programa de perfuração de 4 poços já concluído
Estudos geológicos
Bônus de assinatura de PSC
Custos administrativos (desde março/2023)
Investimento adicional: Valeura arcará com até US$ 3.7 milhões para aquisição adicional de sísmica de 165 km² no bloco G3/65.
Modelo contratual: Contrato de Partilha de Produção (PSC) com o governo tailandês:
Royalties: 10% da receita bruta.
Provisão para recuperação de custos: até 50% da receita bruta.
Lucro: 50% para o governo, 50% para os contratantes.
Imposto de renda corporativo: 20% sobre o lucro do contratante.
Período de exploração: 6 anos (até maio de 2029), com:
Obrigação de perfurar 8 poços.
Aquisição de 800 km² de sísmica 3D.
Possível extensão por mais 3 anos.
Período de produção: 20 anos, com potencial prorrogação por mais 10 anos.
Condição final: Transação sujeita à aprovação do Governo da Tailândia.
A Valeura vem empilhando caixa há bastante tempo e estava sentada em US$240 milhões. Por isso, já havia se mostrado disposta a fazer um movimento se surgisse uma boa oportunidade. Ainda assim, a Valeura continua com muito espaço para retornar parte desse capital aos acionistas. Uma coisa não exclui a outra, e a gestão já se mostrou aberta a encontrar soluções nesse sentido também.
Sobre o deal, a notícia foi bem recebida pelo mercado. A ação subiu +25% no dia, se aproximando do seu topo histórico. O impacto no resultado ainda vai demorar, já que os blocos ainda não estão em produção. Mas trata-se de uma área com descobertas já feitas e localizada perto de infraestrutura e campos operacionais.
Vale lembrar que a Valeura tem um excelente histórico na Tailândia. Foi lá que, em 2022 e 2023, a empresa realizou duas aquisições que a transformaram em uma produtora de petróleo com geração de caixa relevante. O resultado? As ações se valorizaram mais de 20x desde então.
2) Pitney Bowes $PBI
Nessa semana, a Pitney Bowes divulgou seu resultado do Q2 2025. Como nunca falei da Pitney Bowes por aqui, vou começar por um breve resumo desse case:
A Pitney Bowes é uma empresa centenária de logística e tecnologia de envio que atende clientes em todo o mundo (incluindo gigantes brasileiras e mais de 90% das empresas da Fortune 500). Apesar desse bom posicionamento, é um negócio que vinha enfrentando anos de má gestão e destruição de valor. De 2014 até 2022, a empresa despencou 90%.
Por quê? Porque a antiga gestão adorava um clássico da autofagia corporativa: tirava dinheiro dos negócios que dão dinheiro pra torrar em negócios que dão prejuízo.
O combo “clientes fiéis + gestão incompetente + divisão legado que gera caixa e é negligenciada + divisão nova que só queima dinheiro” é, para ativistas, o que sangue no mar é para tubarão. Felizmente. E foi assim que a Hestia Capital entrou em cena. A mesma Hestia Capital que brilhou no caso GameStop. (antes do alarde do short squeeze)
A Hestia Capital iniciou posição na Pitney Bowes em 2022. Tentou conversar. Não deu. Partiu pra proxy fight. Ganhou. Assumiu o Conselho. Se livrou da gestão. E iniciou o turnaround. Tum, tum, tum… pá!
O ponto de virada veio em maio de 2024, com Lance Rosenzweig como CEO interino. A nova gestão fechou a deficitária divisão de e-commerce (GEC), cortou custos, repatriou capital, reorganizou as dívidas e reposicionou a empresa pra gerar valor. Só de maio até hoje, a $PBI se valorizou uns 120%. Desde que a Hestia iniciou posição, em 2022, deve ser uns 250%.
E, agora sim, podemos falar do seu resultado do Q2 2025:
Mudança na Gestão
Paul Evans assume como CFO. Era membro do board, audit chair e já havia trabalhado com o CEO Kurt Wolf na GameStop.
Paul e Kurt afirmam que ficam no cargo sem prazo definido e com total alinhamento. Kurt está como CEO há dois meses, Paul acabou de assumir como CFO.
Gestão com estilo agressivo e pragmático.
“Então, o ritmo em que eu trabalho — o ritmo de mudança que eu busco — é muito agressivo. E sempre que houver uma oportunidade de gerar mais valor do que a disrupção causa, nós vamos aproveitá-la.”, Kurt Wolf
Desempenho dos Segmentos
SendTech
Receita -8% YoY (comparação contra pico com migração IMI em 1H24. espera resultados YoY muito melhores pra 2H25).
Foco em renovações de leasing, que geram mais margem ao longo do tempo. Crescimento de +20% YoY.
EBIT ajustado do segmento +5% mesmo com queda de receita, graças à gestão de custos.
Presort
Volumes pressionados por perdas competitivas geradas por más decisões da gestão anterior.
Nova gestão autorizou plano da executiva Debbie Pfeiffer para reverter perdas de clientes.
EBIT ajustado +33% com ganho de eficiência e corte de custos.
Alocação de Capital
Recompra de ações: US$ 130 milhões YTD; programa ampliado de US$ 150M para US$ 400M.
Dividendos aumentados pelo terceiro trimestre consecutivo: US$ 0.08/ação.
Estratégia de capital baseada em 4 pilares:
Recompras e dividendos crescentes.
Redução de alavancagem e custo da dívida.
Aumentar investimentos internos de baixo risco e alto retorno.
M&A oportunístico e rentável (tuck-ins).
Dívida e Desalavancagem
Retirados US$ 14 milhões em notas de 2027 e 2029 a desconto.
Atingida meta de leverage < 3x.
“Uma ênfase reduzida na recompra de dívidas nos permitiu recomprar ações de forma agressiva, a preços que acreditávamos ser muito atrativos. Também quisemos evitar “pagar caro” pela nossa dívida”, Kurt Wolf
Pitney Bowes Bank (Possível Unlock de Valor)
Reconhecem o banco como um ativo subavaliado
Justin Dopierala, da DOMO Capital, citou o caso da Harley-Davidson - que firmou parceria com KKR e PIMCO para seu braço de serviços financeiros - como possível inspiração para a PBI.
A gestão reconheceu os paralelos entre o modelo da Harley e o Pitney Bowes Bank, e indicou que está avaliando a estrutura e possibilidades:
“É um template. Sabemos disso, estamos estudando. Só digo: fiquem atentos.” – Paul Evans
Revisão de Guidance 2025
Receita: de US$ 1.95B–2.00B para US$ 1.90B–1.95B (queda atribuída a decisões ruins na precificação do Presort).
“Essa atualização, que é quase inteiramente atribuída à Presort, decorre de uma ênfase excessiva anterior nas margens EBIT, em detrimento da conquista e retenção de certos clientes da Presort — que teriam sido lucrativos mesmo com margens mais baixas. A nova gestão reverteu a política da antiga administração para garantir que a Presort possa aproveitar sua força e escala como líder de mercado sob a liderança de Debbie Pfeiffer.”
EBIT: topo da faixa reduzido de US$ 480M para US$ 465M (impacto de eventos não recorrentes).
FCF mantido US$ 330M-US$ 370M (efeitos não recorrentes são não-caixa).
EPS ajustado: de US$ 1.10–1.30 para US$ 1.20–1.40, puxado por recompra de ações.
Conclusão
O mercado torceu o nariz para o resultado ao ver o guidance revisado para baixo. É o tipo de notícia que nunca arranca aplausos. Some-se a isso, a PBI é uma tese que afasta os entusiastas do crescimento sexy: relatórios com muitos ajustes, uma indústria que não brilha aos olhos e uma ação que já se valorizou muito nos últimos meses.
Ainda assim, achei a reação exagerada. E boa parte da minha boa vontade com essa tese vem da figura de Kurt Wolf:
Skin in the game: Kurt tem grande parte do seu patrimônio investido na PBI e cancelou seu plano 10b5-1, que trata da venda de ações por insiders.
Senso de urgência: mesmo com a recuperação da ação desde o ano passado, Kurt não se acomodou. Pelo contrário, ele tomou as rédeas de vez e trouxe Paul Evans para acelerar ainda mais a virada.
Inconformismo: a perda de receita na Presort não foi ignorada e nem teve panos quentes. Kurt demonstrou frustração real (eu interpretei mais como irritação) e já atacou o problema.
Confiança no case: Ele quer que mais investidores compreendam a tese. Não está satisfeito com a avaliação atual. Disse com todas as letras:
“Precisamos fazer o mercado entender e enxergar o que nós vemos, e ganhar confiança no futuro da empresa — o que também inclui voltar ao crescimento de receita. E eu acredito que estamos confiantes de que vamos chegar lá.”
Alocação de capital: Kurt é muito consciente sobre buscar o melhor equilíbrio entre desalavancagem, recompras e reinvestimento. Desde que assumiu, vem recomprando ações massivamente. Foram US$130 milhões neste ano, e o programa foi ampliado de US$150 para US$400 milhões. Isso significa que ainda restam US$270 milhões e acredito que será todo utilizado até o fim do ano.
Kurt aposta no crescimento de receita. Eu nem conto com isso. Trabalho com um cenário de receitas estáveis e, se vier algum crescimento moderado, tanto melhor. O que realmente importa aqui é a geração de caixa, que, aplicada no ritmo atual de recompras, vai se traduzir em boa valorização mesmo sem nenhum re-rating.
Ainda assim, é provável que esse re-rating venha em algum momento. Kurt deixou claro que quer tornar a tese mais compreendida, atrair mais cobertura e posicionar a PBI de forma mais visível no radar do mercado. Fica aqui, então, a minha colaboração para jogar uma luz sobre esse case!
Não acho que vamos demorar a ver esse papel em $16-$17 — hoje está $11


Vc acha que PBI seria uma alocação satélite no portfólio, ou acredita num retorno de dois dígitos (via buybacks e dividend) nos próximos anos?
Muito bom!! 👏🏻👏🏻