SmartShooter - $SMSH
a empresa que ensinou o rifle a pensar
Website: https://www.smart-shooter.com/
Ticker: $SMSH (TASE)
Dia desses o exército americano fechou mais um contrato. Nos tempos atuais, isso não deve surpreender ninguém. Mas dessa vez atraiu minha atenção. Se trata de um contrato de $10.7 milhões com uma empresa israelense que poucos ouviram falar. Uma empresa chamada SmartShooter, sediada no kibutz Yagur, perto de Haifa.
O contrato é um follow-on. Ou seja, comprador e vendedor já se conhecem. Já houve compra, já houve teste, e agora o cliente quer mais. Esse detalhe diz muito.
No mundo militar, recompra é um dos maiores selos de aprovação que existem. Produto ruim em campo de batalha não dá segunda chance. Por isso não existe marketing melhor que o aval de um militar que voltou e pediu de novo.
O que a empresa faz
A SmartShooter é especializada em sistemas inteligentes de controle de tiro para armas leves. O principal produto deles é a linha SMASH, uma espécie de “mira inteligente” com IA embarcada.
O processo é simples mas tecnologicamente sofisticado. O sistema SMASH é acoplado a qualquer rifle em poucos minutos e, a partir daí, usa processamento de imagem para identificar e selecionar o alvo. Depois do travamento, o sistema acompanha automaticamente os movimentos do alvo (e também os do operador) mantendo a mira corrigida em tempo real. Quando o disparo é autorizado, o software coordena o momento exato do tiro para maximizar a probabilidade de acerto.
Em testes realizados contra alvos em movimento a 100 metros:
Mira convencional (“red dot”): cerca de 20% de acerto entre operadores experientes
Sistema SMASH: aproximadamente 80% de acerto, tanto para novatos quanto para operadores experientes
Na prática, o SMASH transforma um soldado comum em alguém muito mais próximo de um atirador de elite. Não é a toa que a filosofia deles seja literalmente “One Shot, One Hit”. A tecnologia é protegida por patentes e nasceu de mais de uma década de desenvolvimento conjunto com as Forças de Defesa de Israel.
Um pouco de história
A história da SmartShooter começa em 2006, durante a Segunda Guerra do Líbano. Michal Mor era líder de equipes de P&D na divisão de mísseis da Rafael, uma das principais empresas de tecnologia de defesa de Israel (a mesma do Iron Dome). Seu marido, reservista da Brigada Golani, recebeu a ordem de mobilização e entrou no Líbano com um fuzil padrão, sem nenhuma tecnologia embarcada.
Mor olhou para aquele rifle e teve uma idéia. Na Rafael, ela havia passado anos trabalhando com sistemas de mísseis guiados. Cada disparo precisava ser cirúrgico. A pergunta que ela se fez foi simples: por que a tecnologia que guia um míssil não poderia guiar uma bala?
Naquele mesmo ano, ela deixou a Rafael junto com Avshalom Ehrlich, engenheiro de software que fazia parte da sua equipe. Eventualmente, os dois decidiram montar a própria startup. Em maio de 2011, registraram a SmartShooter no Kibutz Yagur.
A primeira reunião no Ministério da Defesa foi com um protótipo improvisado de um laptop conectado a uma arma de airsoft. Três anos de desenvolvimento resumidos sobre uma mesa para receberem uma categórica resposta de que aquilo nunca ia funcionar. Mas quando Mor explicou a idéia para os engenheiros de mísseis do MAFAT (direção de P&D do Ministério da Defesa de Israel), eles viram potencial.
Eventualmente, a Brigada Golani foi a primeira unidade a testar o sistema. A primeira reação dos soldados não foi das melhores, já que o SMASH tem o controle do gatilho e só libera o disparo quando a probabilidade de acerto é máxima. Mas a resistência sumiu assim que viram os resultados.
O que veio depois foram anos tentando educar o mercado. Não havia demanda formal por “miras inteligentes”. Era uma categoria que não existia. A SmartShooter teve primeiro que criá-la antes de poder vendê-la. A empresa fez demonstrações em dezenas de países, passou por ciclos de avaliação com diversos exércitos e foi, aos poucos, construindo credibilidade.
A virada veio com dois eventos inesperados: a invasão russa da Ucrânia em 2022, e a guerra Israel-Hamas em 2023. Ambos tornaram a ameaça dos drones impossível de ignorar. Em Gaza, o SMASH abateu enxames de drones de ataque e provou sua eficácia em combate urbano real, validando o sistema de uma forma que nenhum teste de laboratório poderia fazer.
A SmartShooter passou de poucos mercados para presença em mais de 25 países. Abriu subsidiárias nos Estados Unidos, na Alemanha e na Austrália. Em março desse ano, a empresa fez seu IPO na Bolsa de Tel Aviv, levantando aproximadamente NIS 200 milhões.
SmartShooter Hoje
A SmartShooter hoje vive seu melhor momento. Um excelente 50% de crescimento em 2025, com enorme alavancagem operacional. A empresa está capitalizada após seu IPO, não possui dívidas e gerou caixa. Enquanto isso, as ordens vão chegando:
Os novos clientes diversificaram o perfil de receita da SmartShooter. Em 2024, o Ministério de Defesa de Israel representava 47% da receita. Em 2025, caiu para 22%. No mesmo período, os Estados Unidos apareceram como novo cliente relevante com 22% da receita, a Europa contribuiu com 24%, e Asia-Pacífico com 13%. A empresa passou de dependente de um único cliente doméstico para uma operação distribuída em mais de 25 países, como:
Américas: Estados Unidos
Europa: Inglaterra, Alemanha, Holanda, Suécia e outros
Ásia-Pacífico: Austrália, Índia, Japão, Singapura e Tailândia
Oriente Médio e África: Ministério da Defesa de Israel e diversos países africanos
A SmartShooter opera com duas principais linhas de produto, ambas baseadas na mesma arquitetura tecnológica de controle de tiro assistido por computador.
1- Sistemas para armas leves:
Voltados para o combatente individual:
SMASH 3000
SMASH X4
Foco em aumentar a precisão, a letalidade e a capacidade de engajamento contra alvos móveis e drones.
2- Sistemas de armas remotamente controladas:
Voltados para plataformas estacionárias ou remotas:
SMASH HOPPER
SMASH HOPPER MG
Projetados para proteção de fronteiras, infraestrutura crítica e operações remotas com elevada precisão.
Além disso, os sistemas podem ser conectados a arquiteturas militares externas maiores.
O contrato de $10.7 milhões que mencionamos no início do texto é para uma versão do SMASH 3000, o SMASH 2000LE. A entrega está prevista para o terceiro trimestre de 2026, e sucede uma sequência acelerada de contratos com a defesa americana:
Exército dos EUA (maio de 2025): PEO Missile & Space encomendou uma solução C-UAS (anti-drone) integrada em nível de brigada como parte do programa JCO.
Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA (julho de 2025): Encomendou uma solução C-UAS portátil em configuração “dismounted”, com integração ao RCWS, conexão ao sistema TAK e comunicação com radar.
Força Aérea dos EUA (março de 2026): Diversos pedidos para proteção de bases e defesa contra ameaças aéreas utilizando soluções C-UAS.
O ritmo dos contratos sinaliza o tamanho da oportunidade no mercado anti-drones. À medida que drones baratos se transformaram na arma mais disruptiva dos conflitos recentes, as forças armadas passaram a correr atrás de soluções de C-UAS. Alguns estimam que esse mercado vai ultrapassar $ 10 bilhões até 2030. A essa altura vocês já sabem que não sou grande fã de projeções de TAM, mas me basta perceber que a direção e a velocidade do mercado de C-UAS parecem bem favoráveis.
A SmartShooter negocia com um market cap de aproximadamente $ 360 milhões. Considerando a situação pós-IPO, o enterprise value deve girar hoje próximo de $ 280 milhões. Com um 2025 EBITDA de ~$ 7 milhões, a impressão é que não é nenhuma barganha. Mas isso é olhando pelo retrovisor. O ritmo de novos contratos e a alavancagem operacional sugerem que é razoável imaginar um 2026 com $ 55 milhões e margem de 20%-25%.
O ponto principal, porém, é que quase ninguém está olhando para a empresa. A SmartShooter acabou de abrir capital e segue listada apenas na TASE, sem cobertura de sell-side e praticamente sem ownership institucional. Ainda assim, seus produtos já operam em 25 países, foram testados em campo de batalha, validados por pedidos recorrentes da defesa americana e inseridos em um mercado que cresce rapidamente. Difícil dizer que se trata de uma micro-cap qualquer.
Pra fechar
A SmartShooter parece um caso raro de empresa que efetivamente criou uma categoria de produto. A idéia de uma “mira computadorizada” já havia aparecido antes (ex. TrackingPoint), mas a abordagem da SmartShooter é inédita: um acessório externo adaptável a armas leves, focado em alvos móveis e com controle de disparo embarcado. Uma solução que encontrou aderência real no campo de batalha.
Por trás da SmartShooter está uma equipe formada por veteranos das principais empresas de defesa de Israel, como Rafael, Elbit e Israel Aerospace Industries. A empresa possui proteção de propriedade intelectual, opera em um mercado estruturalmente crescente e se beneficia de um momento em que os orçamentos globais de defesa seguem em expansão.
Por outro lado, ainda é uma empresa recém-listada, ilíquida, com histórico curto de rentabilidade e sujeita ao risco inevitável de disrupção tecnológica.
O que vocês acham?
Grande abraco,
Leo Caroli











