Bom dia, família!
Há algum tempo que não publico nosso Radar. Convenhamos que essa é uma seção que não deveria levar tanto tempo para aparecer. A idéia era justamente ser algo periódico. A culpa do atraso? IA.
A IA vem tendo um efeito curioso em mim. Ao mesmo tempo em que me deixa mais produtivo, também me deixa mais ocupado. Primeiro, porque existe todo o tempo gasto aprendendo ferramentas, treinando modelos e construindo aplicações. Segundo, porque produtividade maior acaba levando, inevitavelmente, a fazer mais coisas. O resultado é que fico mais ocupado do que antes, o que talvez não fosse exatamente a promessa implícita da IA. Mais alguém por aqui passando pela mesma experiência?
Enfim, vamos tentar retomar nosso acompanhamento periódico do que andamos vendo por aí. E, como estamos voltando depois de um bom tempo, vou aproveitar para revisitar algumas coisas antigas também.
1. Ondo Insurtech $ONDO.L
Empresa britânica listada em Londres, especializada em tecnologia de prevenção de sinistros para seguradoras residenciais. Seu produto principal é o LeakBot, sensor autoinstalável que detecta microvazamentos e aciona um serviço de reparo, reduzindo custos de sinistros por danos de água. O modelo de negócio é B2B com foco em expansão nos EUA.
Última atualização: [Radar 19]
2. TruBridge $TBRG
Empresa fundada em 1979 que fornece soluções de tecnologia para o setor de saúde, com foco em pequenos hospitais rurais e comunitários dos Estados Unidos. Sua gestão foi influenciada pela entrada de Damien Leonard, filho de Mark Leonard, como um dos principais acionistas em 2024.
Perfil: ‘TruBridge, Inc.: Na cola dos Leonards’
3. Pitney Bowes $PBI
A Pitney Bowes é uma empresa americana com atuação centenária no setor de envio e logística, que vem passando por um processo de reestruturação sob nova liderança. Seu modelo atual combina leasing de equipamentos e serviços postais (SendTech), pré-triagem automatizada de correspondências (Presort) e uma unidade financeira (Pitney Bowes Bank). Sob o comando de Kurt Wolf (o mesmo da GameStop), a companhia vem focando em eficiência operacional, geração de caixa e recompra agressiva de ações.
Última atualização: [Radar 13]
1) Ondo Insurtech
Resolvi começar pela Ondo porque ela nos deu, nos últimos meses, uma importante lição sobre mercado, narrativa e realidade.
No último dia 21, a empresa divulgou sua atualização sobre o primeiro trimestre de 2026. E o grande destaque acabou sendo sua situação financeira. Infelizmente, um destaque negativo. Alguns pedidos importantes de clientes passaram a atrasar e outros ficaram incertos, criando pressão por liquidez de curto prazo.
O caixa caiu de £4m para apenas £1.1m. A empresa renegociou seus termos com a HomeServe adiando pagamentos e aumentando o custo da dívida. Ainda assim, a Ondo reconheceu que essa renegociação não é suficiente. Com isso, a empresa passou a avaliar alternativas de financiamento, incluindo diluição.
No fim das contas, nosso comentário no Radar 19 sobre o comportamento do CEO envelheceu bem. Desde então, o mercado puniu as ações da empresa, que já cairam mais de 80% desde então.
A lição que fica é clara. Produto com boa proposta de valor, TAM gigantesco e um CEO propagandista conseguem sustentar uma narrativa por algum tempo. Mas não para sempre. Em algum momento, o mercado cobra números. E quando os números demoram a chegar ou ficam incoerentes com a narrativa pintada, a conta chega.
2) TruBridge
A TruBridge foi vendida.
No último dia 23/04, a companhia anunciou sua venda para a IKS Health em uma transação all-cash de aproximadamente US$ 560 milhões com fechamento esperado para o terceiro trimestre deste ano. Os acionistas receberão US$ 26.25 por ação, algo próximo de 25% desde a nossa publicação sobre a empresa.
Para Damien Leonard, a operação encerra um investimento muito bem-sucedido. A Pinetree começou a montar posição na TruBridge há pouco mais de dois anos. Desde então, o case amadureceu operacionalmente, a percepção sobre a qualidade dos ativos melhorou e, no fim, a companhia acabou sendo adquirida por um player estratégico por excelente valorização.
Agora começa uma nova etapa boa de acompanhar. A TruBridge representava uma fatia grande do portfólio da Pinetree e, com a venda, Damien Leonard terá novamente bastante capital para realocar. Vale observar com atenção seus próximos movimentos. Às vezes uma boa carona vale mais do que um mapa.
3) Pitney Bowes $PBI
A PBI divulgou seu resultado do Q1 2026 nessa semana. Vamos ver o que eles trouxeram:
Resumo Financeiro
· Receita: $477M (–3% YoY), vs. $493M no Q1 2025. Queda explicada por Presort (–8%), parcialmente compensada por SendTech (–1%).
· GAAP EPS: $0.39 (+105% YoY), vs. $0.19 no Q1 2025. Lucro líquido de $58M vs. $35M, impulsionado por cortes em SG&A (–$33M YoY) e menor número de ações.
· Adj. EPS: $0.47 (+42% YoY). Adj. EBIT de $130M (+9%), margem Adj. EBIT expandindo de 24.3% para 27.3%.
· Free Cash Flow: $44M vs. –$20M no Q1 2025. Primeiro Q1 com FCF positivo em vários anos. Gestão de working capital melhor que o esperado.
· Adj. EBITDA: $156M (+5% YoY). Margem EBITDA subiu de 30.0% para 32.7%.
SendTech (sinais de inflexão)
· Receita: $314M (–1% YoY), vs. –6% no Q4 2025. Menor queda em trimestres recentes
· Adj. Segment EBIT: $114M (+17% YoY). Margem EBIT subiu de 30.7% para 36.2%. Opex caiu $14M YoY.
· Bookings crescendo YoY pela primeira vez. Assinantes pagos de software em alta, churn de meters em queda. Três frentes de atuação: retenção ativa de cancelamentos, analytics preditivo para clientes em risco e go-to-market reforçado.
· Shipping software como maior oportunidade de crescimento. Também três frentes: redução do número de soluções, abordagem demand-driven e uso do PB Bank como diferencial competitivo via crédito a clientes de e-commerce.
· Headwind no 2S: Kurt alertou sobre possível impacto de clientes não-core (fulfillment) com volumes em declínio.
Presort Services
· Receita: $163M (–8% YoY). Volume de 3.6B peças (–6%), com –2% de mix. Queda reflete perdas de clientes e declínio de mercado.
· Adj. Segment EBIT: $39M (–28% YoY). Margem EBIT contraiu de 30.8% para 24.0% por menor alavancagem operacional e mix desfavorável.
· Virada competitiva: Ganhos de clientes superaram perdas no Q1. Volume perdido por churn diminuiu a cada mês e ganhos por novos clientes aumentaram a cada mês. Gestão espera volume positivo YoY no início do Q3.
· Greenhill mantida para M&A: ajudar no processo de realizar tuck-in acquisitions.
Guidance (reafirmando aumento)
· Guidance 2026 atualizado (21/abr): Receita $1.80–1.86B, Adj. EBIT $425–465M, Adj. EPS $1.50–1.65, FCF $345–380M.
· vs. guidance original (fev): Low end subiu em todas as linhas. Receita +$40M, Adj. EBIT +$15M, Adj. EPS +$0.10, FCF +$5M. High end também subiu marginalmente.
· Implicit guidance: Tom sobre Presort mudou de “consertando erros” para “ganhos superando perdas”. SendTech descrita com “strongest momentum during my tenure”. Gestão deliberadamente conservadora em FCF e admite possível pull-forward de 4Q25 e 1Q26.
Alocação de capital (pivot para desalavancagem)
· Recompras: 53.1M ações por $565M acumuladas (preço médio $10.64). No Q1: 12.9M ações por $136M. FDS caiu de 185M para 148M em 12 meses (–20%). Até maio/26: 17.2M ações por $186M
· Dividendo: $0.10/ação (+11% QoQ). Quinto aumento em seis trimestres. Dobrou em ~18 meses.
· Pivot para credores: No Q4 a ênfase era recompras mas nesse Q1 houve foco em deleveraging e melhoria de rating. Meta de net debt/EBITDA ~3x. Expectativa de pagar bonds 2027 nos próximos meses sem nova emissão.
“We want Pitney Bowes to be deemed a high-quality investment for equity and debt investors alike. Along those lines, we remain committed to deleveraging and continue to expect to reduce net debt in 2026.”
PB Bank e Revisão Estratégica
· PB Bank: Sob Steve Fischer. Explorando empréstimos a clientes de mailing/shipping com retornos atrativos (ajustado por risco). Parceria beta com Temu mencionada como teste de serviços bancários para shipping (aqui Wolf foi cauteloso, chamou de “beta test”).
· Strategic Review Phase 2: a iniciar até final do Q2 2026. Divulgará quando for o momento. Board avaliando assessores. Kurt Wolf enfatizou que a revisão não prejudicará execução atual.
“I can’t emphasize it enough because I don’t feel like we get appropriate value for the bank that we have. Our borrowing rate at the bank is on deposits is incredibly low. And again, we have access to brokered CDs, which is well below the cost of capital for any of our competitors. So it’s a really unique asset we have. And you’ll see over time with Steve and his team ramping up some of the value we can create out of the bank, not just through the bank, but also for our customers and other businesses.”, Kurt Wolf
Custos e Reestruturação
· SG&A: $133M vs. $166M no Q1 2025 (–$33M, –20%). Cortes recentes liderados internamente, sem consultores. Paul Evans afirmou que os cortes não comprometem capacidade de crescimento.
Mudança de Narrativa vs. Q4 2025 (minha opinião, claro)
· Q4 2025: Tom cauteloso. CEO admitiu erros de pricing em Presort e falhas de forecasting. Guidance com ranges amplos por incerteza.
· Q1 2026: Tom confiante. Linguagem como “strongest momentum during my tenure” e “incredibly well positioned for the long term”. Pre-announcement em 21/abr já sinalizava resultado acima do esperado. Mais disposta a dar timing de inflexão (Presort volume positivo no Q3).
“I think there's durability in our free cash flow. I mean we've -- Kurt and I have both said for many times that we're undervalued stock if you believe in the free cash flow. And obviously, the durability is sort of proving itself out.”, Paul Evans
Conclusão
A grande expectativa agora gira em torno do anúncio da segunda fase da revisão estratégica. Em entrevista à Bloomberg, Kurt Wolf admitiu que recebe sondagens pela PBI, o que indica que uma venda não está fora de questão:
“We have had inbound interest. As you can imagine, there’s interest from taking private. But we’re going to do whatever’s best for shareholders.”
Outro ponto que chamou atenção foi o pivot para desalavancagem. Não apenas pelo movimento em si, mas pela velocidade e pela forma. Wolf sinalizou a intenção de eliminar toda a dívida de curto prazo (~US$370 milhões) nos próximos dois meses, sem precisar de capital adicional.
No mais, gostei do Q1. O EPS cresceu bem, sustentado por redução de custos e de ações em circulação. A receita total ainda caiu um pouco, mas a qualidade dos sinais melhorou tanto em SendTech quanto em Presort. Apesar disso, o mercado pareceu discordar de mim - o que não é incomum - e a ação caiu quase 7% após os resultados.
Seja como for, o ânimo em relação à PBI melhorou bastante nesse último mês de Abril e a ação chegou a tocar $16. Em Agosto eu comentei que achava que não demorariamos a ver essa ação em $16-$17 (na época estava em $11). Levamos uns 8 meses pra encostar lá, o que não é mal. Seja como for, acredito que ainda tem água pra rolar.


